Os principais debates globais sobre segurança alimentar indicam uma transformação urgente no setor, que exige mais ação prática, integração entre os elos da cadeia e uso inteligente da tecnologia. Essa orientação foi consolidada a partir dos resultados e discussões da Global Food Safety Initiative (GFSI) Global Conference Vancouver 2026, apresentados na última quinta-feira, 9 de abril, durante o evento “Segurança Alimentar – Um Negócio de Todos – Direto da GFSI Global Conference Vancouver 2026”, realizado pela SGS Brasil no Hotel Renaissance, em São Paulo.
Para o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, proteínas e produtos agroindustriais, a segurança alimentar deixou de ser apenas um requisito regulatório para se tornar uma vantagem competitiva estratégica. Em um cenário de maior rigor sanitário por parte de mercados como Europa, Estados Unidos e Ásia, o alinhamento com padrões internacionais reconhecidos — como os esquemas aprovados pela Global Food Safety Initiative (GFSI) — é fundamental para reduzir riscos de interrupções comerciais, fortalecer a credibilidade da origem brasileira e sustentar o acesso a mercados de alto valor.
Organismos internacionais como a FAO destacam que países exportadores que investem em sistemas robustos de controle, auditorias baseadas em risco e uso inteligente de dados estão mais bem posicionados para antecipar exigências regulatórias, responder a crises sanitárias e preservar a confiança de compradores e consumidores finais, especialmente em cadeias de valor complexas como as do agronegócio brasileiro.
“O movimento global indica uma mudança consistente no papel da segurança alimentar. O tema deixa de ser tratado apenas como exigência de conformidade e passa a assumir uma posição estratégica, baseada na gestão de riscos, análise de dados e construção de confiança ao longo de toda a cadeia de valor”, destacou Rubiana Enz, Business Manager da SGS Brasil. “Segurança de alimentos não é teoria, é ação diária.”
Em um contexto de cadeias de suprimento cada vez mais globalizadas, o cumprimento de normas de segurança alimentar se consolida como um fator crítico para o acesso a mercados e a continuidade das exportações. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 10 pessoas no mundo adoece anualmente devido ao consumo de alimentos inseguros, o que equivale a 600 milhões de casos e mais de 420 mil mortes por ano, com impacto direto na confiança do consumidor e na reputação das empresas.
Do ponto de vista econômico, a FAO e a Organização Mundial do Comércio (OMC) alertam que falhas em segurança alimentar podem resultar em rejeições em fronteiras, restrições sanitárias e perdas comerciais, em um mercado global de alimentos que movimenta cerca de US$ 1,7 trilhão por ano e é regido por normas cada vez mais rigorosas e baseadas em risco, sob o marco do Acordo SPS da OMC.
Nesse cenário, a capacidade de transformar informação em decisão torna-se um diferencial competitivo. Dados que não geram ação perdem valor e podem representar risco para as empresas. “Dados sem ação se tornam passivo”, reforçou a executiva, ao destacar a necessidade de decisões mais rápidas e orientadas por risco. A evolução, segundo ela, pode começar de forma objetiva e contínua, com foco em melhorias incrementais e resultados mensuráveis.
:: Tecnologia, dados e cultura como base da nova gestão
A digitalização avança como um dos principais motores dessa transformação. Auditorias mais digitais, uso de inteligência artificial e soluções baseadas em Internet das Coisas (IoT) ampliam a capacidade de monitoramento, rastreabilidade e antecipação de riscos ao longo da cadeia.
As ferramentas já permitem acompanhar mudanças regulatórias em tempo real, reduzir a dependência de controles manuais e apoiar decisões mais assertivas. Soluções voltadas à gestão de riscos em cadeias complexas, como plataformas integradas e inteligência aplicada a dados regulatórios, começam a ganhar espaço e a reduzir o tempo entre a identificação do risco e a tomada de decisão.
Ao mesmo tempo, cresce a adoção de tecnologias incorporadas a embalagens e processos, capazes de monitorar variáveis como temperatura, gases e condições de conservação dos alimentos. Esse avanço contribui para maior transparência e comunicação com o consumidor, especialmente em mercados mais maduros.
Apesar da evolução tecnológica, o fator humano continua sendo central. A efetividade dos sistemas depende da cultura organizacional, do engajamento das equipes e da capacidade de tomada de decisão nos níveis operacionais. “A tecnologia avança, mas quem garante a segurança são as pessoas”, afirmou Rubiana. Modelos contínuos de capacitação, com foco em prática, frequência e autonomia, começam a substituir treinamentos pontuais e mais teóricos.
:: Confiança, transparência e responsabilidade ampliada
A confiança do consumidor se consolida como um dos principais ativos do setor. Em um ambiente de alta exposição digital, a forma como as empresas se comunicam impacta diretamente sua reputação. A ausência de posicionamento, especialmente em situações críticas, contribui para a perda de credibilidade e reforça a necessidade de maior transparência.
Outro ponto relevante é a ampliação da responsabilidade ao longo da cadeia. A segurança alimentar não se limita à indústria e depende da atuação integrada de logística, transporte, armazenamento, varejo e distribuição até o consumidor final. A chamada “última milha” passa a desempenhar um papel decisivo na entrega de um produto seguro.
Esse cenário exige maior colaboração entre empresas, governo e organismos certificadores, além do compartilhamento de dados e alinhamento de práticas. A construção de credibilidade vai além do cumprimento de normas e envolve consistência, comunicação e confiança.