Os embarques do agro brasileiro apresentam tendência de bom desempenho em volume este ano, mas com a ressalva de preços mais acomodados e alta dos custos, tanto de produção quanto logísticos, o que acarreta em um cenário de margens mais pressionadas para o produtor rural. O prognóstico é do coordenador do Mestrado em Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Felipe Serigatti.
Segundo o especialista da FGV, diante do quadro global pautado por incertezas geopolíticas, o impacto inicial, claro, vem se refletindo no preço do petróleo e também no bloqueio de importantes corredores marítimos, como, por exemplo, o Estreito de Ormuz. “Tudo isso se reflete em valores de frete mais caros para todos. Para os fertilizantes, o custo desta safra já está embutido. A conta pode chegar para o ciclo 2026/27”.
Nesta agenda geopolítica, o embaixador Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo, assinala que o início – ainda que provisório – do Acordo Mercosul-União Europeia em 1º de maio desponta como uma alternativa vital à atual dependência comercial do agro brasileiro e de nossas exportações como um todo. “Hoje, temos cerca de 10% do nosso comércio com os Estados Unidos e quase 30% com a China”, afirma.
Todavia, Barbosa ressalva que, embora o mercado europeu seja colossal – com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 17 trilhões –, o Brasil enfrentará desafios em cotas e barreiras ambientais. “Exigências como as leis de desmatamento e o mecanismo de ajuste de carbono (CBAM) agora poderão ser discutidas e negociadas dentro do âmbito do tratado, com mecanismos próprios para a solução de controvérsias.”
O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, registra que o agro está preparado devido à sua alta produtividade, mas prevê um período de transição de 15 anos. “Apesar da enorme diversidade regional, o Brasil é competitivo. Nossa preocupação central deve ser o pequeno produtor; se a tecnologia não for acessível, o acordo pode gerar exclusão social. O desafio é garantir escala e certificação para que todos possam competir.”
Em uma visão mais adiante, o professor do Insper, Alberto Pfeifer, posiciona o agro como o instrumento de dissuasão do Brasil. “Outros países têm a bomba atômica, nós temos a força do nosso agro, que oferece alimentos, fibras e energia ao mundo, além do domínio da tecnologia de agricultura tropical”, acentua, acrescentando que: “o agro é poder para o Brasil, é um trunfo nosso. Isso é geopolítica. É vender caro e para amigos.”