Estudo publicado pela npj Sustainable Agriculture, revista científica do grupo editorial Nature, demonstra cientificamente como a segunda safra tem reduzido a pegada de carbono de uso da terra no Brasil. O estudo tem como foco principal o milho e mostra como a tecnologia, desenvolvida pelo Brasil e dedicada à agricultura tropical, abre espaços para uma agricultura mais sustentável.
O milho de segunda safra, cultivado após a cultura da soja na mesma área e ano agrícola, ganhou escala nas últimas décadas, quebrando o paradigma de que para produzir mais é necessário expandir as áreas agrícolas. Esse sistema de produção concilia objetivos de segurança alimentar, redução de gases de efeito estufa e preservação ambiental.
As pesquisas foram conduzidas pelos pesquisadores Danilo Francisco Trovo Garofalo, Luciane Chiodi Bachion e Marcelo M. R. Moreira, da consultoria Agroicone; Renan Novaes, Ricardo A. A. Pazianotto e Marília Folegatti, da Embrapa Meio Ambiente; e ainda Daniel Alves de Aguiar, da Canopy; Rafael Cardão Augusto, da Serasa Experian; e Lucas Kreutzfeld, da Epagri/SC.
O estudo refina as estimativas da pegada de carbono relacionada à mudança direta do uso e cobertura da terra (indicador conhecido pela sigla em inglês dLUC) e ao manejo do solo associado ao milho de segunda safra, além de trazer conclusões sobre os impactos positivos em setores da economia essenciais, como o de biocombustíveis.
Durante dois anos, o grupo de pesquisadores conduziu um minucioso levantamento que mapeou, pela primeira vez, a partir de imagens de satélite, as áreas produtoras de milho de segunda safra em todo o Brasil. Adicionalmente, a pesquisa utilizou dados do MapBiomas para analisar o uso e cobertura da terra nessas áreas em cortes temporais de 10 e 20 anos, permitindo contabilizar o balanço de carbono associado às mudanças de uso e cobertura da terra e à implementação de práticas de manejo do solo.
O mapeamento identificou que o milho de segunda safra ocupou 17,1 milhões de hectares no Brasil em 2023. Entre 2003 e 2023, a área de milho de segunda safra aumentou em 14,4 milhões de hectares, consolidando o sistema de cultivo duplo como um diferencial da produção de grãos no País. Essa expansão ocorreu majoritariamente em terras já consolidadas para a agricultura, o que reduz a necessidade de novas conversões de vegetação nativa e, sobretudo, o desmatamento.
Combinando esse mapeamento com dados de estoque de carbono do método BRLUC2 as emissões associadas à mudança direta do uso da terra (dLUC) foram estimadas entre 0,6 e 0,9 t CO₂ por hectare por ano.
Esses valores ficam entre 40% e 57% abaixo das estimativas reportadas por metodologias nacionais, e entre 40% e 80% inferiores às referências internacionais – ambos os casos estimam um valor para o milho brasileiro, sem diferenciar sistemas de primeira e segunda safra.
Segundo o pesquisador da Agroicone Danilo Garofalo, os resultados evidenciam a relevância de incorporar o mapeamento espacialmente explícito das áreas de milho de segunda safra nas estimativas de emissões associadas ao uso da terra no País. “Esse novo mapeamento será muito útil para modelos de uso da terra nacionais e internacionais, como os próprios BRLUC e MapBiomas, para refinarem suas estimativas de uso da terra e de emissões associadas ao milho brasileiro, retratando-as de forma mais precisa”, complementa Renan Novaes, analista da Embrapa Meio Ambiente.
“Além dos efeitos relacionados à menor necessidade de expansão agrícola, a adoção de práticas de manejo sustentável ainda permitiu aumentar o armazenamento de carbono no solo, comparado ao sistema de safra única, compensando aproximadamente 20% das emissões geradas pela mudança de uso da terra”, destaca a pesquisadora da Agroicone Luciane Chiodi.
Um dos principais beneficiados por esse modelo tecnológico é justamente o setor de energia e transportes, no qual o etanol de milho de segunda safra se consolida como uma alternativa capaz de ampliar a produção de biocombustíveis sem demandar abertura adicional de áreas agrícolas. Esse ganho ambiental também se reflete diretamente na intensidade de carbono do combustível produzido a partir dessa matéria-prima.
O estudo demostra que as emissões líquidas do etanol, decorrentes da mudança de uso da terra e do manejo do solo associados ao milho de segunda safra, são entre 2,3 e 5,3 g CO₂ MJ⁻¹ para o período de 20 anos, e entre 0,8 e 1,5 g CO₂ MJ⁻¹, quando analisado o período mais recente. Esses valores são inferiores ao apresentado pela literatura, que calculam emissões de dLUC de até 30 g CO₂ MJ⁻¹ para o etanol de milho brasileiro. “Esses dados validam cientificamente o baixo impacto ambiental do etanol de milho de segunda safra e seu potencial estratégico para o cumprimento das metas globais de descarbonização”, reforça Garofalo.
Os resultados quantificam, pela primeira vez, os benefícios dessa modalidade de cultivo e abrem caminhos para a atualização dos modelos de cálculo nacional e internacional da pegada de carbono relacionada à mudança direta do uso e cobertura da terra.
“A atualização desses indicadores, consequentemente, resulta em uma menor pegada de carbono do etanol de milho de segunda safra frente aos cálculos atuais, em um aumento da atratividade e da competitividade desse biocombustível, principalmente em setores desafiadores como os de transportes marítimo e aéreo”, reitera Chiodi. “Esses dados validam cientificamente o baixo impacto ambiental do setor e seu potencial estratégico para o cumprimento de metas globais de descarbonização”, finaliza a pesquisadora.
O que a segunda safra tem de especial
Os temas pertinentes à mudança de uso e cobertura da terra, estão entre os mais sensíveis quando se trata do potencial de adoção de biocombustíveis, como o etanol de milho brasileiro, como alternativa para setores de difícil descarbonização, como transportes marítimo e de aviação. A escala de tais setores demanda especial atenção a esses cálculos.
A conclusão do estudo é que o sistema de segunda safra traz duas contribuições relevantes para uma baixa pegada de carbono do etanol feito de milho:
a) uma baixa emissão relacionada à mudança direta de uso e cobertura da terra (dLUC), uma vez que expandir o cultivo do milho de segunda safra não demanda abertura de novas áreas no Brasil;
b) uma capacidade maior de acúmulo de carbono no solo, em função do cultivo de duas safras na mesma área.
Desmatamento
O crescimento da área plantada de milho no sistema de segunda safra ao longo do intervalo entre 2003 e 2023 teve um outro efeito relevante mensurado pela pesquisa: a queda significativa de desmatamento ou de necessidade de ampliação de fronteiras agrícolas atrelada a essa commodity.
A comparação entre os períodos de 2013-2023, com o intervalo de dez anos anteriores, mostra uma redução de 73% nas emissões anuais líquidas de CO2 provenientes da mudança direta de uso da terra (dLUC) do milho.