O setor lácteo brasileiro vive um momento de transformação. Em meio a oscilações nos preços pagos ao produtor, aumento das importações e mudanças no ambiente regulatório, a cadeia passou a acelerar discussões sobre profissionalização, previsibilidade e transparência de mercado.

O movimento ocorre em um setor de grande peso econômico e social. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de leite, com produção superior a 34 bilhões de litros por ano. A atividade está presente em 98% dos municípios brasileiros, envolve mais de 1 milhão de propriedades rurais e gera cerca de 4 milhões de empregos.

Mesmo com essa relevância, a cadeia ainda convive com forte volatilidade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os laticínios brasileiros captaram 27,51 bilhões de litros de leite em 2025, alta de 8,5% frente a 2024 e um novo recorde para o país. Minas Gerais permaneceu como principal produtor nacional, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul.

Apesar do crescimento na produção, os preços pagos ao produtor perderam força ao longo do ano. O valor médio do litro ficou em R$ 2,56 em 2025, queda de 1,9% na comparação anual. No quarto trimestre, o recuo foi ainda mais intenso, de 19,9%.

 

Da intervenção estatal ao mercado livre

O mercado brasileiro de leite passou por uma mudança estrutural no início da década de 1990. Até então, os preços eram tabelados pelo governo federal como mecanismo de controle da inflação.

O modelo, porém, criava distorções. Como os reajustes oficiais demoravam a acompanhar os custos de produção, produtores e indústrias frequentemente operavam sem margem, o que gerava perda de qualidade, desabastecimento e insegurança no setor.

Com a desregulamentação, os preços passaram a seguir a dinâmica de oferta e demanda, além de fatores como clima, custos de produção e mercado internacional.

Para Roberto Hugo Jank Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), o principal desafio atual não é necessariamente o preço, mas a falta de previsibilidade. “Parte do setor não tem visibilidade do preço que vai receber naquele mês, então ele fica sabendo do preço no último dia do mês ou no primeiro dia do mês seguinte”, afirma.

Segundo Jank, a cadeia vem avançando gradualmente em profissionalização, especialmente por meio de contratos e referências de mercado. “O sistema de contratos entre produtor e indústria está melhorando e aumentando. Muitas indústrias já estão usando referências de preço de mercado para fazerem contratos com os produtores.”

 

Fim do antidumping ampliou debate sobre competitividade

A discussão sobre medidas de apoio ao mercado ganhou força após 2019, quando o governo brasileiro pôs fim às tarifas antidumping sobre leite em pó importado da União Europeia e da Nova Zelândia.

Desde então, entidades do setor passaram a pressionar por mecanismos que ampliassem a competitividade do leite nacional e reduzissem distorções de mercado.

Foi nesse contexto que começaram a surgir legislações estaduais voltadas à restrição da reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido.

O Paraná foi pioneiro ao regulamentar, em 2025, uma lei que proibiu a prática no estado. A medida acabou servindo de base para legislações semelhantes em Goiás e Santa Catarina.

 

PL 5738/2025 leva discussão ao Congresso

O avanço das leis estaduais abriu espaço para a tramitação do Projeto de Lei 5738/2025, de autoria do deputado federal Zé Silva (União Brasil-MG), aprovado em abril deste ano pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. O texto proíbe a reconstituição de leite em pó importado para uso em produtos alimentícios voltados ao consumo humano em todo o território nacional.

Segundo o parlamentar, a proposta busca reduzir distorções na cadeia e aumentar a rastreabilidade da matéria-prima utilizada pela indústria.

“O principal desequilíbrio na cadeia é que o consumidor continua pagando o mesmo preço que ele pagava e o produtor recebendo um preço muito menor.”

Zé Silva também afirma que a medida não deve ser vista como protecionismo. “Os produtores de leite não precisam de proteção, precisam ser respeitados.”

Já Roberto Jank avalia que o principal mérito da proposta está no combate à fraude e no aumento da transparência. “Você não pode enganar o consumidor que está imaginando que está bebendo leite e está bebendo um produto reconstituído sem informação.”

 

Indicador do Leite DATAGRO amplia transparência

Em paralelo às discussões regulatórias, o setor também passou a ganhar novas ferramentas de inteligência de mercado.

Em abril deste ano, a DATAGRO lançou o Indicador do Leite DATAGRO, iniciativa criada para ampliar a transparência sobre os preços praticados no mercado brasileiro.

A ferramenta divulga dois boletins mensais: um voltado ao preço pago ao produtor e outro ao preço de contrato, ambos expressos em reais por litro. A metodologia contempla importantes estados produtores, como Minas Gerais, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.

A proposta é criar uma referência comum para produtores, indústria e agentes do mercado, em um cenário cada vez mais dependente de informação rápida e previsibilidade.

 

Profissionalização será decisiva para o futuro

Embora as discussões sobre importação tenham ganhado destaque nos últimos anos, representantes do setor avaliam que o principal desafio da cadeia leiteira brasileira continua sendo estrutural.

Para Roberto Jank, o avanço da atividade dependerá da ampliação de contratos, ganho de escala, padronização e maior eficiência produtiva. “O mercado de leite no Brasil precisa ganhar em profissionalismo”, diz a autoridade.

Já Zé Silva defende que políticas públicas voltadas ao crédito rural, renda do consumidor e fortalecimento da produção nacional continuarão sendo fundamentais para garantir sustentabilidade ao setor.

Entre novas legislações, indicadores de mercado e maior cobrança por transparência, a cadeia do leite brasileira entra em uma nova fase — mais técnica, profissional e orientada por informação.