A recente decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de elevar, inicialmente por 180 dias a partir do último sábado (1º) – a concentração de etanol na gasolina para 32% – denominada de E32, gera perspectivas positivas para o agronegócio ao impulsionar a cadeia sucroenergética e a produção do etanol de cana-de-açúcar e de milho. O objetivo é reduzir a necessidade de importação de gasolina pelo Brasil. No entanto, a mudança exige atenção técnica quanto aos desdobramentos na oferta do campo e na adaptação dos diferentes tipos de motorização existentes no mercado.
A nova dosagem de 32% de etanol na gasolina traz reflexos diretos para o agronegócio, impulsionando os setores sucroenergético e de biocombustíveis. A estimativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) é de que o E32 gere uma demanda adicional entre 540 milhões de litros de etanol anidro nos primeiros seis meses, podendo atingir até 1 bilhão de litros ao longo de toda a safra.
Segundo o engenheiro agrônomo Glauco Eduardo Pereira Cortez, diretor de relações profissionais do Crea-SP, a medida beneficia tanto a cadeia tradicional da cana-de-açúcar quanto a produção de etanol de milho. “Essa demanda adicional ajuda a absorver a oferta de etanol resultante da safra 2026/2027, aliviando a pressão sobre as usinas para a comercialização do produto e estimulando o direcionamento da produção para o biocombustível no mercado interno, além de fortalecer a pauta da descarbonização”, pontua.
Sob a ótica do planejamento do setor sucroenergético, a medida é vista como um passo positivo para consolidar a presença do produto na matriz energética nacional. O período inicial de 180 dias estabelecido pela regulamentação funciona como uma importante janela de acompanhamento técnico para alinhar a oferta do setor agrícola ao consumo do mercado interno. “A elevação do percentual para 32% é uma medida positiva para a agenda de biocombustíveis no Brasil. É uma política pública que contribui diretamente para o equilíbrio do mercado e abre espaço para o fortalecimento das cadeias produtivas de cana e milho”, afirma Cortez.
Quanto à capacidade de atendimento, a avaliação do diretor é de que o país possui segurança produtiva total para sustentar o aumento sem risco de desabastecimento. O avanço das usinas de milho no Centro-Oeste, somado à alta produtividade agrícola no Centro-Sul, garante suporte para o novo percentual. “O Brasil tem toda a condição de manter essa mistura. O problema do setor não é a produção, e sim a demanda, pois temos combustível armazenado e volume suficiente até para exportação. Essa elevação funciona para escoar o estoque e, a longo prazo, tende a estimular novos investimentos em produtividade, moagem e expansão de usinas”, conclui.
“Para a maior parte da frota brasileira, que é equipada com a tecnologia flex, a nova mistura não oferecerá riscos de danos ou falhas mecânicas nas peças do motor, já que esses veículos são projetados para rodar com gasolina, etanol, ou com a mistura dos dois em qualquer proporção”, explica o engenheiro mecânico Marcelo Perrone, diretor administrativo do Crea-SP.