O Brasil vive um novo momento na produção de etanol, com a consolidação de dois modelos produtivos que avançam de forma complementar: o tradicional etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho, em rápida expansão. Juntos, eles reforçam o papel estratégico do país na transição energética global e ampliam a segurança de abastecimento no mercado interno.
De acordo com a primeira projeção da DATAGRO para a safra 2026/27, a moagem de cana-de-açúcar deve totalizar 635 milhões de toneladas, resultando na produção de 26,62 bilhões de litros de etanol. Paralelamente, a fabricação de etanol a partir do milho é projetada em 11,80 bilhões de litros na temporada 2026/27, com um parque industrial em forte crescimento, incluindo novas plantas em construção e projetos ainda em desenvolvimento.
Esse avanço acelerado do etanol de milho indica uma mudança estrutural no setor. A expectativa é de que, em menos de uma década, o biocombustível produzido a partir do grão possa atingir volumes próximos aos do etanol de cana, ampliando significativamente a oferta nacional.
Cana e milho: complementaridade, não competição
Apesar das comparações recorrentes, lideranças do setor reforçam que não há competição entre as duas rotas produtivas. Para Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), o foco deve estar no produto final e no papel estratégico do combustível. “Temos o etanol brasileiro e não nos interessa qual a matéria-prima do energético”, afirma, destacando o caráter complementar das diferentes origens.
A mesma visão é compartilhada por Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Segundo ele, as diferenças produtivas entre cana e milho representam uma oportunidade, e não um conflito. “Transformar essas diferenças em complementaridade, com sinergia por meio da produção conjugada, representa uma grande oportunidade”, afirma.
Na prática, essa complementaridade se traduz em ganhos diretos para o mercado. Enquanto a cana é uma cultura sazonal, o milho permite produção contínua ao longo do ano, reduzindo um dos principais desafios históricos do setor: a entressafra.
“O que vimos foi um ganho claro para o consumidor e para o mercado. Com uma oferta mais permanente, houve maior segurança no abastecimento e redução relevante da volatilidade dos preços”, explica Nolasco.
Produto final é o mesmo, independentemente da origem
Do ponto de vista técnico, também não há distinção entre os combustíveis. Como destaca Mário Campos Filho, presidente da Bioenergia Brasil, o produto final é idêntico. “Não há nenhum tipo de diferença entre os dois produtos. Independentemente da matéria-prima, é exatamente o mesmo etanol combustível”, afirma.
Além da segurança energética, o avanço conjunto das duas rotas produtivas também fortalece políticas públicas estratégicas. A ampliação da mistura obrigatória de etanol na gasolina, como no caso do E30, só se tornou viável com o crescimento da oferta proporcionado pelo etanol de milho.
“A oferta adicional foi decisiva para viabilizar políticas como o E30 e garantir o abastecimento, mesmo em momentos de menor produção de cana”, destaca Nolasco.
Benefícios ambientais e descarbonização
No campo ambiental, tanto o etanol de cana quanto o de milho apresentam vantagens relevantes frente aos combustíveis fósseis. A cana se destaca pela alta eficiência energética e uso do bagaço como fonte renovável de geração de energia, enquanto o milho ganha espaço por estar inserido na segunda safra, sem necessidade de expansão de área.
“Temos uma agenda comum. O nosso inimigo a ser enfrentado é o carbono”, resume Nolasco, sintetizando o alinhamento entre os diferentes segmentos do setor.
O avanço do etanol de milho também tem impulsionado o desenvolvimento regional, especialmente no Centro-Oeste, ao transformar excedentes de produção em biocombustíveis e gerar coprodutos como o DDG, que é reaproveitado na cadeia pecuária para alimentação animal.
Para Campos Filho, esse movimento cria um ciclo virtuoso. “O modelo remunera quem produz com menor pegada de carbono e incentiva a expansão do etanol como solução de descarbonização”, afirma.
Diante desse cenário, o Brasil consolida uma posição única no mundo: um sistema integrado de produção de biocombustíveis, baseado em múltiplas matérias-primas, capaz de garantir escala, sustentabilidade e competitividade, com ganhos diretos para o consumidor, para o produtor e para toda a economia.