A DATAGRO apresentou nesta quinta-feira (20), durante a 7ª edição da DATAGRO Abertura de Safra Soja, Milho e Algodão, realizada no WTC, em Goiânia, suas primeiras perspectivas para a próxima temporada de grãos, em um cenário marcado pela expectativa de produção recorde de soja no Brasil, demanda global aquecida e atenção redobrada aos efeitos do clima sobre as lavouras.

As projeções foram debatidas no painel “Panorama DATAGRO de Produção e Mercado de Grãos – Perspectivas para a Próxima Safra e o Longo Prazo”, moderado por Flávio Roberto de França Júnior, líder da área de Grãos da DATAGRO, e que contou com a participação dos analistas de mercado de grãos  da casa Gabriel Bastos e Pedro Bohn Schmaedecke.

Entre os principais números apresentados, o levantamento anual de intenção de plantio da DATAGRO Grãos aponta que a área cultivada com soja no Brasil deverá crescer pelo 20º ano consecutivo na safra 2026/27, passando de 49,187 milhões de hectares no ciclo atual para 49,320 milhões de hectares. Caso confirmado, será o menor avanço da área desde a retração registrada na temporada 2006/07.

Mesmo com a expansão marginal da área, a expectativa inicial é de produtividade média de 3.763 quilos por hectare, permitindo uma produção potencial de 185,568 milhões de toneladas. O volume seria 1% superior às 182,853 milhões de toneladas estimadas para 2025/26 e estabeleceria um novo recorde para a produção brasileira da oleaginosa.

No milho, a DATAGRO trabalha atualmente com uma produção de 145,228 milhões de toneladas na soma das safras de verão e inverno de 2025/26, acima das 143,305 milhões de toneladas colhidas no ciclo anterior e da estimativa de 142,253 milhões apresentada em junho. Para a próxima temporada, a expectativa inicial é de novo avanço da área cultivada, de cerca de 22,9 milhões para 23,6 milhões de hectares, considerando primeira e segunda safras.

Apesar da perspectiva de crescimento da produção brasileira, o comportamento do clima aparece como um dos principais fatores de risco para a safra 2026/27.

Durante o painel, Pedro Bohn Schmaedecke destacou a elevada probabilidade de atuação do El Niño, estimada em 80%, fenômeno que tende a favorecer um maior volume de precipitações na Região Sul, mas que pode trazer um ambiente mais desafiador para áreas do Norte e Nordeste, especialmente diante da possibilidade de períodos de estiagem dentro da estação chuvosa.

No caso da soja brasileira, a DATAGRO avalia que o desempenho produtivo deve ser favorecido principalmente pelas regiões Centro-Sul, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem registrar rendimentos um pouco menores. Com isso, mesmo diante de uma safra potencialmente recorde, o balanço doméstico permaneceria ajustado, com estoques projetados em cerca de 2,6 milhões de toneladas e bastante sensíveis aos eventuais impactos do El Niño.

Além do clima, o painel chamou atenção para o avanço da demanda mundial por commodities agrícolas e seus reflexos sobre os estoques.

Na soja, apesar da perspectiva de crescimento da produção global, puxada principalmente pelos Estados Unidos, a expansão do consumo vem pressionando a relação entre estoques e demanda. No Brasil, a combinação entre forte processamento doméstico e exportações, sobretudo para a China, tende a manter o balanço apertado e pode dar sustentação aos prêmios da soja brasileira, favorecendo sua competitividade frente a outros grandes exportadores.

Para o milho, Gabriel Bastos destacou uma perspectiva de maior aperto entre oferta e demanda. A produção mundial tende a recuar, com expectativa de menor oferta nos Estados Unidos e em parte da América do Sul, ao mesmo tempo em que o consumo continua crescendo.

Entre os principais vetores estão a expansão da produção pecuária, que amplia a necessidade de milho para ração, e o crescimento da indústria de etanol de milho. No Brasil, a DATAGRO também projeta aumento do uso do cereal nos próximos ciclos, tanto na alimentação animal quanto nas usinas de etanol.

Ao resumir o cenário, França destacou que a combinação entre demanda aquecida e redução dos estoques tende a criar um ambiente mais construtivo para as cotações agrícolas. A avaliação apresentada no painel aponta para preços mais firmes em 2027, depois de um 2026 já melhor que 2025, em um movimento que pode representar o início de um novo ciclo de valorização das commodities agrícolas.

Esse movimento ganha importância diante do aumento dos custos enfrentados pelo produtor brasileiro. Insumos mais caros, maior custo de produção e condições de crédito mais restritivas reduziram as margens do setor nos últimos ciclos, fazendo com que uma eventual recuperação das cotações seja um fator importante para recompor a rentabilidade no campo.