O Brasil está emergindo como uma das histórias mais promissoras da indústria limpa no mundo. O país reúne vastos recursos, incluindo energia renovável, biomassa, e minerais críticos a acesso estratégico a centros globais de demanda em expansão, pilares que sustentam uma grande transformação industrial.

Novos dados do Global Project Tracker, da Mission Possible Partnership, revelam a dimensão dessa oportunidade, com 34 projetos representando um investimento potencial de US$ 306 bilhões abrangendo combustíveis, produtos químicos e metais limpos.

O novo relatório da Mission Possible Partnership e do Acelerador da Transição Industrial (ITA, na sigla em inglês), “Indústria Limpa em Ascensão: a Base para Cadeias de Valor Resilientes”, aponta que 19 projetos de indústria limpa, somando cerca de US$ 43 bilhões em investimentos estimados, alcançaram a Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês) nos últimos seis meses, mais que o dobro do ritmo registrado um ano antes, à medida que países e empresas buscam reduzir sua exposição aos voláteis mercados de combustíveis fósseis e fortalecer as cadeias de suprimentos industriais.

“A indústria limpa está avançando porque o mundo mudou. Em um cenário cada vez mais fragmentado e instável, a dependência de combustíveis fósseis tem se mostrado, repetidamente, uma fonte de exposição a choques de preços, interrupções no fornecimento e crises econômicas, além de continuar alimentando a crise climática e seus impactos crescentes. Os países que desenvolvem sistemas industriais mais limpos podem conquistar maior controle sobre os elementos essenciais de suas economias: energia, alimentos, materiais e bens industriais que sustentam todos os aspectos da vida das pessoas”, afirma Faustine Delasalle, CEO da Mission Possible Partnership e Diretora Executiva do Acelerador da Transição Industrial.

Carteira de US$ 306 bilhões da indústria limpa brasileira

Dos 34 projetos mapeados, três plantas de alumínio já estão em operação. Um projeto de combustível sustentável para aviação (SAF, na sigla em inglês) atingiu a FID após a atualização do Tracker. 25 projetos de amônia limpa, 4 projetos de metanol limpo e mais um projeto voltado à produção de SAF já foram anunciados.

Dos US$ 306 bilhões que compõem a carteira total, US$ 219 bilhões referem-se à infraestrutura de energia renovável, enquanto os US$ 87 bilhões restantes estão vinculados a ativos industriais. Essa distribuição evidencia um dos principais atributos da oportunidade brasileira: sua vantagem competitiva tem origem na energia. Sua abundância de recursos renováveis posiciona o Brasil de forma privilegiada para suprir os insumos de energia limpa de baixo custo que serão cada vez mais determinantes para a competitividade da indústria global.

Combustíveis limpos representam oportunidade estratégica para o Brasil em um mercado global em rápida expansão

Os combustíveis limpos são uma das áreas mais dinâmicas da carteira brasileira, com projetos voltados à produção de SAF, metanol e amônia limpa. Em escala global, os investimentos nesse segmento estão acelerando. Nos últimos seis meses, quatro unidades de produção de SAF, nove plantas de metanol e três projetos de amônia limpa alcançaram FID.

Mandatos pioneiros para o uso de SAF na União Europeia e em países da Ásia têm contribuído para impulsionar os investimentos, oferecendo aos produtores um caminho mais claro para garantir compradores de longo prazo e proporcionar maior previsibilidade de retornos para investidores. Nesse contexto, a disponibilidade de matérias-primas nativas, a abundância de terras e a sólida expertise agrícola do Brasil colocam o país em posição favorável para conquistar uma parcela relevante desse mercado em expansão.

Nesse contexto, a Acelen Renováveis alcançou FID para sua biorrefinaria de SAF de US$ 1,5 bilhão na Bahia, tornando-se o primeiro projeto no Brasil apoiado pelo ITA a atingir esse marco decisivo para sua implementação.

O projeto é um demonstrativo pioneiro da oportunidade dos combustíveis limpos para o Brasil. A biorrefinaria utilizará a macaúba, que é uma oleaginosa nativa do Brasil, como matéria-prima para a produção de SAF. A planta é uma espécie resistente, capaz de se desenvolver em solos de baixa fertilidade, com reduzida necessidade de água e sem competir com culturas destinadas à alimentação. Essas características fazem da macaúba uma matéria-prima ambientalmente responsável, contribuindo para a descarbonização da aviação sem representar riscos à biodiversidade, às florestas, à segurança alimentar ou às prioridades de uso da terra.

“Os projetos selecionados pelo ITA recebem apoio dedicado para fortalecer sua atratividade como investimentos, e o FID da Acelen é um exemplo perfeito desse apoio em ação. Para os projetos de SAF no Brasil, o ITA tem trabalhado sobre como melhorar o acesso do bio-SAF brasileiro de alta integridade aos mercados internacionais. Esse acesso ao mercado é vital para garantir os tipos de contratos de compra que a Acelen obteve para conseguir seu financiamento”, ressalta Marc Farre Moutinho, líder do ITA no Brasil.

Parcerias comerciais e o caminho para a resiliência industrial

O relatório destaca que as parcerias comerciais voltadas para a indústria limpa entre países com capacidades complementares oferecem um caminho para ampliar a resiliência, a competitividade e o crescimento industrial. Para o Brasil, que conta com abundantes recursos de energia renovável e uma carteira crescente de projetos, a oportunidade vai além do mercado doméstico. O país tem potencial para se tornar um exportador competitivo de commodities industriais de baixo carbono para os mercados globais.

Apesar do crescimento atual, a aceleração adicional não está garantida. O relatório destaca três prioridades fundamentais para transformar o momento atual em uma mudança industrial mais ampla e duradoura: criar mercados mais robustos para produtos limpos; desenvolver parcerias comerciais que conectam regiões com energia limpa de baixo custo a grandes centros de demanda industrial de forma mutuamente benéfica; e mobilizar capital público e privado para reduzir os riscos associados aos investimentos em projetos pioneiros.