Ainda hoje, o agricultor conhece pouco sobre a pesquisa agropecuária de ponta desenvolvida no Brasil, afirmou Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão, na abertura do terceiro painel da 7ª DATAGRO Abertura de Safra Soja, Milho e Algodão, realizada nesta quinta-feira (20), em Goiânia (GO).
Com o tema “Inovações Produtivas – novas estratégias de manejo, bioinsumos e maquinário”, o painel discutiu não apenas o desenvolvimento de novas tecnologias, mas também os desafios para integrar essas soluções à rotina do produtor rural.
Para Oliveira, um dos principais entraves está na qualificação da mão de obra. “Falta pessoal especializado na fazenda. Não adianta ser moderno sem qualificar os profissionais da propriedade”, afirmou.
O moderador também destacou a importância da atuação conjunta entre o poder público e o capital privado na busca por inovações e no desenvolvimento de novos produtos, como insumos biológicos e sistemas de gestão agrícola.
Participaram ainda do debate Rodrigo Rodrigues, diretor comercial de Grãos e HF da Koppert Brasil, que abordou o avanço dos bioinsumos nas lavouras, e Nelson Sá, gerente regional de Gestão e Manejo de Irrigação da Valmont, que apresentou soluções de irrigação inteligente para enfrentar safras mais desafiadoras.
Popularização dos insumos biológicos
Embora os bioinsumos não sejam uma novidade na agricultura, o mercado tem registrado crescimento no uso dessas soluções nos últimos anos. Segundo Rodrigues, a Koppert observa uma substituição gradual de soluções químicas por produtos biológicos nas lavouras.
“A produção de novas moléculas químicas já está estagnada no mercado. Por outro lado, a criação de soluções biológicas vem se expandindo cada vez mais”, afirmou o diretor comercial.
Segundo ele, o maior tempo necessário para o desenvolvimento de novas moléculas químicas e os custos elevados desse processo têm levado empresas a ampliar os investimentos em produtos à base de microrganismos.
Outro fator apontado por Rodrigues é a perda de patentes desses produtos, que ocorre, segundo ele, 10 anos após o lançamento. Enquanto um insumo químico pode levar até 24 anos para ser desenvolvido, o bioinsumo apresenta um tempo médio de produção de oito anos, afirmou.
A Koppert também desenvolve tecnologias integradas aos bioinsumos, incluindo drones para aplicação de soluções. A companhia mantém ainda um centro avançado de pesquisas voltado à criação de novos agentes biológicos de controle, resultado de uma parceria público-privada com a Esalq/USP, o SPARCBio.
Gestão hídrica inteligente
Além da escolha dos produtos utilizados na lavoura, a gestão eficiente dos recursos naturais é outro desafio para o produtor, especialmente em relação ao uso da água. De acordo com Sá, muitos agricultores ainda avaliam a necessidade de irrigação com base apenas na umidade da camada superficial do solo.
“Eu chamo isso de ‘botinômetro’: se a terra embaixo da botina está seca, pode irrigar; se está úmida, não precisa. E nós sabemos que hoje não é bem assim”, brincou o gerente.
Segundo o representante da Valmont, atualmente, apenas 6% da área agrícola nacional é irrigada. Embora as técnicas de irrigação estejam avançando no Centro-Oeste, o produtor ainda enfrenta dificuldades para realizar uma gestão mais eficiente da água, afirmou.
Para lidar com desafios como a escassez hídrica, especialmente em períodos influenciados por fenômenos climáticos como o El Niño, a companhia vem desenvolvendo soluções integradas que, segundo Sá, conciliam o uso da água, o monitoramento da lavoura e a análise das condições do campo.
“Hoje, tecnologia não é um luxo, é uma grande necessidade”, afirmou. Um dos exemplos citados foi a plataforma AgSense 365, que utiliza Big Data para cruzar informações de solo, clima e equipamentos e indicar ao produtor o volume de irrigação necessário para a lavoura.
As tecnologias utilizadas pela Valmont, argumenta Sá, podem proporcionar economia de até 20% no consumo de água e de energia da propriedade. “O uso inteligente da irrigação também impulsiona a produtividade e, por consequência, a rentabilidade do agricultor”, concluiu.