Embora não haja, até o momento, um mapeamento com dados precisos, o modelo de agricultura regenerativa vem sim ganhando espaço no agro brasileiro a partir de uma série de iniciativas, projetos-pilotos, experiências pelo país afora. Conceitualmente, a modalidade é ancorada na adoção de boas práticas agrícolas, entre as quais o plantio direto, sistemas integrados, consórcio de culturas, uso de bioinsumos, entre outras, que contribuem para adaptação dos cultivos às mudanças climáticas, elevam a resiliência das lavouras, reduzem o grau de utilização de insumos e recursos naturais, promovendo ganhos socioambientais e produtivos no campo.

Entretanto, segundo especialistas no tema, escalar a agricultura regenerativa passa, agora, pelo desenvolvimento de mecanismos capazes de reconhecer, precificar e remunerar esses resultados, criando assim um mercado em torno do formato. “O avanço dessa agenda depende da capacidade de conectar desempenho socioambiental, redução de riscos e geração de valor econômico para produtores, empresas e instituições financeiras”, afirma Aline Locks, cofundadora e CEO da Produzindo Certo, que lidera a iniciativa Reg.IA, primeiro consórcio de agricultura regenerativa da América Latina, que conta com o apoio de marcas como Bayer, BrasilSeg, GAPES, InPlanet, Milhão Ingredients, Mina Mercantil e Proforest.

Em recente evento organizado pelo Reg.IA na capital paulista, a especialista em finanças sustentáveis e agronegócio, Daniela Mariuzzo, assinalou que o desafio é monetizar as entregas da agricultura regenerativa, que “hoje tem valor, mas não tem preço”. “Falar de agricultura regenerativa sem métricas é romantismo, com métricas cria-se mercado.”

Aline acentua que, de um lado, existe a crescente demanda de investidores, consumidores e cadeias globais por modelos de produção mais sustentáveis. “Do outro, produtores rurais e empresas seguem avançando na adoção de práticas regenerativas, mas ainda enfrentam desafios para capturar economicamente os benefícios gerados.”

Em seu segundo ano de operação, o Reg.IA já reúne mais de 40 fazendas participantes, ultrapassa 50 mil hectares regenerativos e contabiliza mais de 200 mil toneladas de soja regenerativa e 450 mil toneladas de milho verificados. O consórcio também expandiu a área monitorada de pouco mais de 37 mil hectares para 54.137 hectares regenerativos, registrando um crescimento de 44%. Juntas, as áreas participantes do Reg.IA também conservam mais de 60 mil hectares de vegetação nativa.

Por meio da adesão ao Reg.IA, o produtor rural, por exemplo, tem acesso a um conjunto de benefícios que apoiam a transição regenerativa, como descontos na contratação de seguro rural, condições diferenciadas de crédito e de acesso a insumos, e também, potencial pagamento de prêmios para soja e milho, quando há comercialização efetiva entre a empresa parceira e o agricultor.