Ao contrário do senso comum, que frequentemente sugere que “a carne boa vai para fora”, números de produção e exportações revelam uma realidade diferente, ou seja: o Brasil é o maior cliente de si próprio quando se trata de carne bovina. Aproximadamente de cada dez quilos de carne bovina produzidos em território nacional, sete ficam nas prateleiras dos supermercados e açougues brasileiros. Somente cerca de 30% da produção são exportadas.

Julio Ramos, diretor de assuntos estratégicos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), assinalou em recente evento com especialistas do setor: “tradicionalmente 70% da carne bovina fica no Brasil. A picanha não vai para fora. Exportamos, sobretudo cortes dianteiros, miúdos, tripas, sebo, entre outros itens similares “, disse o dirigente da entidade representativa do segmento em encontro da Liga Agro FAAP, no último dia 16 de abril, na capital paulista.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo – em 2025 embarcou cerca de 3,5 milhões de toneladas -, mas o volume, por ora, é composto majoritariamente pela chamada “carne ingrediente”. São cortes do dianteiro do animal, miúdos, que servem de matéria-prima para as indústrias de fora fabricarem produtos como hambúrgueres, embutidos, pratos prontos, e assim por diante.

Projeções da Conab indicam que a produção nacional de carne bovina tem potencial para atingir 11,3 milhões de toneladas este ano, queda de 5,3%, mas ainda assim o segundo maior volume produzido da série histórica do órgão federal. Ainda segundo estimativas da Companhia, 4,35 milhões de toneladas devem ser exportadas, montante que, se avaliados no conjunto da série histórica da bovinocultura de corte, superam as taxas anuais registradas entre 2018 e 2024. “No ano passado, embarcamos em torno de 3,5 milhões de toneladas”, disse Ramos.

No acumulado do primeiro trimestre, as exportações totais cresceram 32,29% frente a igual período do ano passado, alcançando US$ 4,32 bilhões. Em volume, na mesma base comparativa, o crescimento foi de 10,98%, para 827,64 mil toneladas, apontam dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Industria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).

A realidade é que a demanda nacional é a que, de fato, dita o ritmo dos frigoríficos. O mercado externo é um complemento importante para a balança comercial, mas o fluxo de caixa real das indústrias depende da capilaridade do consumidor doméstico, quebrando mais um mito em torno do agro.