O agronegócio brasileiro, protagonista global na produção de commodities agrícolas, depende de um insumo essencial para sustentar sua produtividade: os fertilizantes. Responsáveis por fornecer nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio (NPK), esses insumos são a base da competitividade agrícola do país — e, ao mesmo tempo, um de seus principais pontos de vulnerabilidade.

Os números mais recentes evidenciam essa dependência estrutural. Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), analisados pela consultoria DATAGRO, em 2025, o Brasil importou 45,6 milhões de toneladas de fertilizantes, com destaque para 13,6 milhões de toneladas de cloreto de potássio, 7,7 milhões de sulfato de amônio e 7,8 milhões de ureia.

Por sua vez, o consumo total no mesmo período chegou a 49 milhões de toneladas, refletindo a expansão contínua da produção agrícola nacional.

Essa trajetória de crescimento é consistente: foram 44,2 milhões de toneladas importadas em 2024, 40,9 milhões em 2023 e 38,1 milhões em 2022 . Ou seja, o avanço das safras recordes tem sido acompanhado por uma demanda crescente por fertilizantes — sem que o país consiga ampliar, na mesma proporção, sua produção interna.

O resultado é um quadro de dependência externa que chega a cerca de 90% dos fertilizantes consumidos no país, segundo o diretor executivo do Sinprifert, Bernardo Silva. Em alguns nutrientes, a situação é ainda mais crítica: “A gente importa 97% do nitrogênio, 100% da ureia, 97% do potássio, 92% do enxofre e 74% do fosfato”, detalha. 

Essa dependência transforma o Brasil em um país altamente exposto às oscilações do mercado internacional — especialmente em momentos de instabilidade geopolítica.

 

Guerra no Oriente Médio expõem o velho desafio

A vulnerabilidade brasileira já havia sido evidenciada em 2022, com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. À época, a Rússia era responsável por cerca de 25% dos fertilizantes importados pelo Brasil, e o conflito provocou uma disparada histórica nos preços, elevando o custo médio por hectare a mais de R$ 3.300, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Agora, um novo choque global surge com o avanço da guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito, iniciado em fevereiro de 2026, trouxe novamente para o centro do debate um dos principais gargalos do mercado global: energia.

O Oriente Médio desempenha papel estratégico na produção de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, cuja fabricação depende diretamente do gás natural.

Segundo Bernardo Silva: “os fertilizantes nitrogenados são feitos usando, em sua grande maioria, gás natural. Qualquer disrupção produtiva traz impacto no escoamento de GNL e afeta a disponibilidade e o custo dessa matéria-prima”. 

Além disso, a região concentra cerca de 40% das exportações globais de ureia, sendo o Irã um dos principais produtores. A ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — adiciona um componente logístico crítico, elevando custos de transporte, seguros marítimos e energia.

Os efeitos já são visíveis nos preços. Dados analisados pela DATAGRO mostram que a  ureia no Oriente Médio atingiu US$ 665 por tonelada em 23 de março de 2026, com alta de mais de 37% em 30 dias . No Brasil, o impacto foi imediato, com cotações chegando a R$ 4.450 por tonelada CIF São Paulo — o maior nível desde 2022.

Outro ponto relevante é o encadeamento produtivo. Não apenas o gás natural, mas também insumos como enxofre — fundamental para fertilizantes fosfatados — são derivados do refino de petróleo e gás.

“O enxofre saiu de US$ 95 por tonelada em dezembro de 2024 para US$ 730 por tonelada  hoje”, destaca Bernardo Silva. 

 

Efeitos no campo 

A escalada dos fertilizantes tem impacto direto na rentabilidade do produtor brasileiro, especialmente nas regiões mais intensivas em uso de insumos, como o Centro-Oeste.

Estados como Mato Grosso (MT), Paraná (PA) e São Paulo (SP) concentram mais de um terço do consumo nacional de fertilizantes. No caso do MT, maior produtor de soja do país, o peso dos fertilizantes nos custos operacionais aumentou significativamente ao longo da última década.

Conforme levantamento da DATAGRO Grãos, com base nos dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), entre as safras 2014/15 e 2020/21, os fertilizantes representavam entre 21% e 26% do custo total. A partir de 2021, esse percentual ultrapassou os 30%, chegando ao pico de 43% na safra 2022/23, no auge da crise da Ucrânia. Mesmo após a normalização parcial, os custos permanecem elevados, na faixa de 31% a 32%.

Esse aumento compromete a relação de troca do produtor — especialmente quando os preços das commodities não acompanham a mesma trajetória de alta.

Bernardo Silva alerta para esse desequilíbrio, “se somarmos isso ao fato de que as commodities agrícolas não sobem na mesma proporção, temos um problema de relação de troca”.

Além do custo direto, há impactos indiretos relevantes, como aumento do frete, devido ao diesel mais caro; elevação dos seguros marítimos; incerteza sobre disponibilidade de produto; e a dificuldade de planejamento das safras.

 

Produção nacional ainda limitada 

Diante desse cenário, a discussão sobre produção nacional ganha força. Apesar de possuir recursos naturais abundantes, o Brasil ainda apresenta baixa capacidade de produção interna de fertilizantes. A média de produção nos últimos cinco anos gira em torno de 7,2 milhões de toneladas — muito abaixo da demanda nacional, segundo a ANDA

Atualmente, a produção brasileira está concentrada principalmente em fertilizantes nitrogenados, com destaque para unidades ligadas à Petrobras, como a FAFEN-BA (Bahia), FAFEN-SE (Sergipe), ANSA (Araucária – PR) e UFN-III (em construção). 

Além disso, projetos privados buscam ampliar a produção nacional, especialmente no segmento de potássio. Um dos principais exemplos é o Projeto Autazes, da Brazil Potash, que pretende produzir até 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano a partir de 2029, podendo suprir cerca de 20% da demanda brasileira .

No campo institucional, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), lançado em 2022, estabelece metas para reduzir a dependência externa e alcançar até 50% de autossuficiência até 2050 .

Segundo Bernardo Silva, houve avanços importantes, como ajustes tributários e criação de centros de excelência, mas o ritmo ainda é insuficiente. “O plano está caminhando, mas gostaríamos que fosse mais rápido”, afirma o diretor do Sinprifert. 

 

O papel central do gás natural: o verdadeiro ponto de inflexão

Se há um consenso no setor, é que o principal gargalo para o desenvolvimento da indústria nacional de fertilizantes é o custo do gás natural.

Como matéria-prima essencial para a produção de amônia e ureia, o gás representa uma parcela significativa do custo total dos nitrogenados. No Brasil, os preços ainda são elevados em comparação a outros países produtores.

“Se o gás cair para US$ 4 a 7 por milhão de BTU, viabiliza a produção nacional. O problema não é falta de recursos naturais, é o ambiente regulatório”, avalia Bernardo. 

Nesse contexto, iniciativas como o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) ganham relevância. O projeto busca justamente reduzir o custo do gás natural para estimular a produção interna.

A lógica é clara: sem competitividade no gás, o Brasil continuará dependente de importações — e, consequentemente, vulnerável a choques externos.

 

Uma crise estrutural, não conjuntural

A atual escalada de preços reforça um diagnóstico recorrente no setor: o problema dos fertilizantes no Brasil não é pontual, mas estrutural. “Já é a terceira crise seguida: teve COVID, depois Rússia, agora Oriente Médio. O problema não é conjuntural, é estrutural”, reforça o executivo. 

Mesmo em um cenário hipotético de fim do conflito no Oriente Médio, a tendência é que os preços não retornem aos níveis históricos. 

Abrir o estreito pode aliviar preços, mas não vai trazer os fertilizantes de volta a patamares antigos, uma vez que há toda uma logística de tornar a passagem navegável novamente.