Nos últimos 50 anos, o Brasil consolidou uma forte relação comercial com os mercados árabes e muçulmanos, que passaram a ver o país como um fornecedor confiável, capaz de atender às exigências culturais e religiosas relacionadas a padrões de qualidade e certificação para os praticantes da fé islâmica.
Devido a essas restrições, muçulmanos só consomem produtos, como as proteínas, produzidos conforme as regras do halal, termo árabe que significa “lícito”. O conceito abrange não apenas alimentos, mas também cosméticos, fármacos, turismo e vestuário. “O halal atende às pessoas que professam a fé islâmica, mas vai além disso: também alcança consumidores que buscam um estilo de vida mais saudável”, afirma Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Atualmente, países de maioria islâmica representam uma parcela relevante das exportações brasileiras, especialmente no setor de proteínas. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina halal, produto altamente demandado nesses mercados.
Segundo a DATAGRO Pecuária, em 2025, o país embarcou ao todo 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura. Desse volume, 210,6 mil toneladas de carne bovina halal tiveram como destino o Oriente Médio. No segmento de aves, o protagonismo também se mantém: foram exportadas 4,96 milhões de toneladas de proteína avícola em 2025, sendo 1,5 milhão de toneladas de carne de frango halal destinadas à região.
Desde junho de 2025, quando os Estados Unidos atacou instalações nucleares iranianas, o abastecimento da região se encontra, em algum nível, ameaçado. No final de fevereiro deste ano, no entanto, o conflito na região ganhou proporções maiores com novos ataques do governo norte-americano e participação das forças de Israel.
Essa escalada resultou no fechamento do Estreito de Ormuz, o que elevou os preços do petróleo e do gás natural, afetou a logística marítima e provocou interrupções em transportes aéreos e rodoviários na região. Como consequência, o mercado de carnes halal, essencial para a população islâmica, passou a enfrentar dificuldades operacionais.
Portanto, exportadores brasileiros e importadores buscam alternativas para manter o fluxo comercial e garantir o abastecimento dos mercados árabes e asiáticos.
Rotas alternativas entram no radar
Além das proteínas, o Oriente Médio também é um importante destino para outros produtos nacionais, como os grãos. O Irã, por exemplo, respondeu por cerca de 22,2% das exportações de milho do Brasil no ano passado, portanto quanto maior os efeitos do conflito, maior é o prejuízo para os embarques brasileiros.
Diante dos riscos logísticos, as empresas têm buscado alternativas para manter os embarques programados. “Estamos avaliando combinações de rotas rodoviárias com portos alternativos, além de caminhos marítimos via o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul”, explica Mourad. O Canal de Suez, no Egito, também surge como opção, embora o elevado fluxo de embarcações possa limitar a agilidade nas operações.
Segundo o secretário-geral, o foco no curto prazo é mitigar prejuízos e preservar as relações comerciais. “Esperamos que o conflito se encerre em breve e que a normalidade seja restabelecida o mais rápido possível”, afirma.
Impactos de curto prazo nos embarques
De acordo com a DATAGRO Pecuária, o conflito pode afetar diretamente cerca de 7% das exportações brasileiras de carne bovina in natura e 30% dos embarques de aves.
Para Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o impacto pode ser ainda maior devido ao papel logístico da região. “Os países do Oriente Médio funcionam como hubs de redistribuição para outros mercados asiáticos, o que amplia o alcance da crise”, afirma.
Segundo a entidade, entre 30% e 40% das exportações do setor podem ser impactadas em caso de prolongamento do conflito. Apenas as vendas diretas de carne bovina para o Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões no último ano. Considerando cargas que passam pela região, o volume potencialmente afetado pode chegar a US$ 5 bilhões ou US$ 6 bilhões.
Já há reflexos imediatos na logística, “observamos a suspensão de reservas de contêineres para embarques destinados ou em trânsito pela região, o que interrompe temporariamente o fluxo comercial”, diz Perosa.
Apesar disso, a Abiec avalia que ainda é cedo para revisar as projeções do mercado halal para 2026. “Mas, o setor acompanha a situação com atenção, pois uma interrupção prolongada pode ter impacto relevante nas exportações e em toda a cadeia produtiva”, completa.
Mourad também destaca o impacto humanitário da crise, “na primeira semana de ataques, nove países árabes que não participaram diretamente dos bombardeios já haviam sido afetados”, afirma.
O que é a carne halal?
A carne halal se diferencia de outras formas de produção por seguir os preceitos da sharia, sistema jurídico islâmico baseado no Corão, livro sagrado da religião. O processo envolve regras específicas para criação, abate e distribuição dos animais, além de certificação por entidades especializadas.
O abate deve ser realizado por um profissional muçulmano, com a recitação de orações e com o animal voltado para Meca, cidade sagrada do Islã. O procedimento exige um corte rápido, que minimize o sofrimento e permita a completa drenagem do sangue.
Apesar da forte presença nas exportações, o consumo interno de produtos halal no Brasil ainda é limitado. “A demanda é pequena, mas trabalhamos para expandir esse mercado no país”, afirma Mourad.
Historicamente, a Câmara de Comércio Arábe-Brasileira trabalha na conexão entre o Brasil e os 22 países da Liga Árabe e, desde 2023, coordena o projeto Halal do Brasil, em parceria com o Governo Federal, ampliando sua atuação para os 57 países da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI) e conectando o país a mais mercados islâmicos.